sábado, 10 de abril de 2010

IGREJADOS E DESIGREJADOS: UMA COISA É UMA COISA; OUTRA COISA É OUTRA COISA

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro
Imagens: Joel Theodoro


Filosofia é boa e sem dúvida uma das maiores bênçãos da razão humana em todos os níveis. Só não pode e nem deve virar filosofia de botequim, de fundo de quintal, de beira de rua nem, segure-se por aí, de pseudocristianismo. Chegamos a uma posição interessante, na qual devemos pensar que é importante preservar o que é valoroso, sem jamais permitir que os tons desafinados dessa coisa a tornem proscrita ou merecedora de ser defenestrada de nosso conceito e de nossa vida. Logo, não é porque é possível termos deformidades da Filosofia que ela deve ser afastada, mas devemos ter em relação a ela a melhor das buscas, a fim de obtermos os melhores juízos dela advindos. E isso diz respeito a outras coisas de nossa existência. Filosofia, no sentido mais lato do sema, é sempre boa. Filosofia, em suas aplicações, entre as quais algumas podem ser até detestáveis, pode ser boa, mas pode ser muito ruim.

Igreja também é coisa boa, sem dúvida alguma. Mas, se analisarmos bem, Jesus instalou entre nós um conceito, sem determinar um modelo operacional rígido ou um regimento interno acabado e definido. Pelo contrário, parece que Sua maior preocupação foi a de estabelecer os pressupostos, os conceitos, o modelo interior e não o exterior da Igreja. Nós, como seres gregários e afeitos a organizar tudo o que tocamos, arrumamos a Igreja em moldes conhecidos de nossas estruturas sociais. Igreja, no sentido estrito de Jesus, é sempre e somente boa. Igreja, no sentido de nossa estruturação e organização, pode ser algo bom, mas pode ser algo muito ruim.

Por que será que boas coisas podem ter más finalidades ou maus andamentos, quando seu propósito é sempre bom? Via de regra, quando as coisas transitam do transcendente para o físico, do metafísico para o tangível, infelizmente – ou felizmente (?) – passam obrigatoriamente por nós, seres humanos. E aí reside o problema de tudo. Essa é a razão básica dos porquês desilusórios de tanta coisa que não deveria ter qualquer problema conjuntural.

Por causa disso e de tantas outras possibilidades, movimentos surgem a cada virada de relógio cósmico. Gente que vai e vem, que sobe e desce. Gente que aparece como salvação de uma lavoura que estava bem, talvez precisando de uma poda aqui ou um adubo ali. Ultimamente tenho ouvido e lido a respeito do debate dos “Com Igreja x Sem Igreja”. Não! Não me refiro aos que abandonam a Igreja, mas aos que insistem em uma nova (será tão nova assim?) forma de ser cristão: o cristão desigrejado. É uma categoria que insiste em ser cristão, diz que jamais abandonará a fé, diz ser preocupado ao extremo com sua espiritualidade, mas com uma diferença dos demais: não quer sequer ouvir falar em Igreja formal.

Muita coisa se usa como desculpa para isso. Muitas dessas justificativas, aliás, são mais que verdadeiramente justas e aceitáveis. Na Igreja de hoje, vê-se abertamente: manipulação das massas, espoliação do incauto, fé barata vendida por preço caríssimo, isolamento denominacional, destruição da unidade do Corpo, troca do espiritual pelo material, esvaziamento da escatologia da esperança eterna por um aqui e agora ralo e sem gosto, esfriamento nas igrejas históricas, aquecimento financeiro nas novas igrejas, perfilamento ecumênico panreligioso, etc e etc.

Mas, voltando ao fato de que tudo isso se dá por nossa ação, e não pela ação da Igreja transcendente ou pela do próprio Cristo, é justo nos esquecermos de outras facetas da Igreja? É nela que vivemos a comunidade, que comungamos que somos servidos por Deus como família ao redor da mesa farta, que dividimos nossas dores e achamos os ombros amigos, que vemos nossos filhos crescerem em Deus, que descobrimos a esperança em meio ao choro. É na Igreja que achamos Cristo através do irmão. É ali que somos saciados pelos sacramentos ou ordenanças, dependendo da forma de crer. É ali que a nossa mente cresce enquanto crescemos por fora. Na Igreja somos apresentados ou batizados ao chegarmos a este mundo; ali envelhecemos e ali somos velados quando dele nos despedimos.

Será mesmo que devemos jogar fora a Filosofia porque há formas menos nobres de tratá-la? Não, ouviríamos uníssono. Pergunto, então, diante de tão simplória reflexão: vamos jogar fora a Igreja porque há possibilidade de a vermos sendo maltratada? Não! Não! E definitivamente não! Sejamos honestos: deixemos de maltratar a Igreja e a veremos com melhores olhos que a vemos agora. Consertemos nossas vidas e a Igreja nos parecerá realmente excelente.

terça-feira, 16 de março de 2010

CAIU PEIXE DO CÉU

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro
Imagens: http://www.flickr.com/


Pois é bem verdade: choveu mesmo peixe no deserto australiano. Quem não conhece o fato, pode recorrer à notícia em fonte primária, nativa: http://www.ntnews.com.au/article/2010/02/28/127891_ntnews.html ou, se preferir, leia a repercussão do fato na mídia brasileira, que registrou a matéria australiana como fonte da inusitada chuva.

Vamos aos fatos, então. Numa cidadezinha de pouco mais de 650 habitantes no meio da região desértica australiana de Lajamanu, distando uns 550 Km a sudoeste de Katherine, há poucas semanas, os escassos moradores simplesmente começaram a ver - e recolher - pequenos peixes brancos que despencavam às centenas céu abaixo, numa bizarra chuva. O mais impressionante é que, segundo relatos de testemunhas locais, muitos dos peixinhos ainda caiam vivos ao chão. Aconteceu não uma, mas duas vezes seguidas, na quinta e na sexta-feira.

A região onde está a cidadezinha fica no Deserto Tanami, com distâncias muito grandes até os lagos mais próximos, Argyle e Elliott, e ainda mais distante da costa. Para muitos estudiosos, a possibilidade mais crível é que tenha havido a formação de um tornado. Mas nenhum tornado foi noticiado ou identificado pelas autoridades e pelos centros de meteorologia. Da mesma forma supôs-se a captação dos peixes, que são muito pequenos, por densas nuvens e seu posterior congelamento para, em seguida, dar-se a precipitação como se fossem granizo. Nada comprovado por esse meio. Pensando bem, por quaisquer desses meios, certamente alguma outra coisa além dos peixes teria despencado dos céus.

Mas o fato é que choveu. Peixe, é claro. Há fotos. Há relatos. Há gente comentando. Há notícias em todo o mundo. Há um fato, há certeza do mesmo, mas não há qualquer informação mais concreta que nos leve a uma explicação do que tenha ocorrido. Mas nem por isso achamos ser mentira. É verdade. Choveu mesmo peixe no deserto da Austrália. E para os mais abobados com o fato, a revelação: essa não foi a primeira, mas a terceira vez que o fenômeno foi documentado nos últimos trinta anos, repetindo episódios semelhantes de 1974 e de 2004.

Todas as vezes que temos dificuldade em explicar algo, nossa tendência é desacreditar, tirar o crédito, achar mentirosa aquela coisa inexplicável. Em tempos modernos, as fotos e a mídia instantânea nos forçam a crer, mesmo que não tenhamos explicações aparentes. Cremos nas imagens ou cremos nos testemunhos. Será que só cremos nas imagens? Ou somente cremos nos testemunhos se atrelados a imagens?

Então, o que dizer de relatos antigos, tão debochados e tão criticados entre nós? O que dizer se relatos bizarros nos forem contados sem imagens, mesmo com muitas testemunhas oculares atestando os fatos? Isso se dá com o homem (pós-)moderno em relação a pelo menos dois relatos de testemunhas antigas, mas que, por razões tecnológicas, não tiveram como nos legar imagens comprobatórias de suas narrativas.

Como dizia antes, pelo menos duas matérias poderiam ter sido escritas pela mídia caso já existissem naqueles dias, e pelo menos dois catálogos de fotos a mais teríamos, caso já tivessem inventado a máquina fotográfica. A primeira matéria talvez tivesse como título “Choveu pão no deserto palestino”, enquanto a segunda matéria talvez tivesse por título “Cai intensa chuva de codornizes deserto afora”. Se analisarmos bem, uma vez que ninguém explica a chuva de peixes na Austrália, qual a diferença lógica entre as três matérias – a de hoje e as de alguns poucos milênios passados? A diferença está na mesma proporção em que são diferentes os meios de difusão.

Se no deserto da Austrália choveu peixe e nós acreditamos, por qual razão não podemos crer que caiu maná e codorniz do céu para alimentar os hebreus no deserto do Egito ou da Palestina? Qual a diferença semântica entre chuva de peixe, chuva de pequeninos pedaços de algo parecido com pão e chuva de codornizes, uma pequena ave da família das perdizes?

Não defendo que a chuva de peixes seja uma tempestade apologética que defenda os textos mais antigos da Bíblia simplesmente como que se uma lição de moral que se derramasse, literalmente, sobre a humanidade. Até por estar convencido que Deus não teria qualquer necessidade de provar nada a ninguém. Mas creio que devemos parar um pouco e rever muitos de nossos conceitos permeados de incredulidade. Precisamos nos perguntar em que bases anda depositada a nossa fé: se no que vemos ou no que cremos.

sábado, 22 de agosto de 2009

COMO MUDAR A IGREJA HOJE?

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro
Imagens: http://www.flickr.com/


Um chamado ao pensamento
A Igreja, ampla, vai bem, graças a Deus.
Os que vão à Igreja em caráter existencial estão existencialmente bem, graças a Deus.
Os que compõem a igreja, comunidade, em caráter institucional e comunitário vão mal, a despeito de Deus os acompanhar.

Pensamentos sobre Igreja e igrejas
Cresci achando que a Igreja era perfeita. Estou feliz por ver que cresci com bom entendimento a esse respeito. Só demorei a perceber que a Igreja é composta por igrejas. É aí que está o problema da Igreja de hoje: as igrejas de que ela se forma.
A Igreja é o Corpo pelo qual Deus continua sua obra entre os homens até que se terminem nossos dias como espécie, mas, paradoxalmente, a Igreja depende de igrejas para que tal missão se complete. Eu me pergunto de quando em vez se é assim mesmo...
A Igreja não é vista, mas as igrejas são vistas. Por isso a Igreja nos pede uma relação de fé e espiritualidade, mas as igrejas nos pedem uma relação de comportamentos e comprometimentos, além de quererem nos ver fisicamente todo o tempo.
A Igreja é regida apenas por Deus, tendo Cristo como cabeça soberano e o Santo Espírito como agente entre os homens, mas as igrejas deixam essa relação de lado e, muito comumente, são co-regidas - por vezes totalmente regidas - por homens apenas, na constante corrida por formatações e ampliações de seus impérios.
As gentes da Igreja são santas e imaculadas, desde já, aos olhos do Criador, mas as gentes, aos olhos dos gestores-imperadores das igrejas são números e cifrões que fazem de seus projetos elementos cobiçados e copiados pelos aprendizes de imperadores da fé.
A Palavra da Igreja salva, consola, dá paz e leva a Deus, mas as palavras das igrejas torcem a alma, impõem novos jugos, roubam a possível paz e levam à dependência toxicológica das missões, congregações, apostolados, episcopados, comunidades e tantos outros nomes de igrejas.
A Igreja tem suas portas abertas pela graça irresistível de Deus e o que por elas entra encontra repouso para a alma atribulada, mas as igrejas têm suas portas abertas para receberem os incautos famintos por vida e os que por elas entram são enredados até à alma, que, uma vez enganada e atrofiada, encontra enorme dificuldade em se libertar de tais processos.
Esse discurso de paradoxos e antíteses poderia se estender por páginas a fio. Mas apenas queria expressar que uma reflexão de alma nos leva a distinguir claramente a Igreja das igrejas.
Por causa da Igreja há milhares e milhares de salvos indo para Deus. Por causa das igrejas, outros tantos milhares estão correndo para longe de Deus e, muitas vezes, crendo estarem se aproximando dele.

Pensamentos sobre o que vemos e esperamos
Olhando para a Igreja sob o olhar ontológico, vemos uma Igreja que continua, sim, mas sem o amparo de suas igrejas. Claro que há exceções, mas estamos tratando do aspecto geral.
Falando de evangélicos (termo genérico), temos dois grandes problemas atuais e ambos nos afastam do Ser que deveria ser central na Igreja: o nominalismo e a Teologia Liberal. Sobre essas duas pragas, Robinson Cavalcanti, bispo anglicano da Diocese Anglicana do Recife (http://www.dar.org.br/) diz em artigo de sua autoria:
“Na universidade, lendo mais e conversando com viajantes, entrei em contato, chocado e decepcionado, com a existência da categoria de protestantes nominais, especialmente em igrejas ligadas ao Estado, com bispos nomeados e pastores funcionários públicos. Um velho pastor me falou que aqueles países se tornaram protestantes ‘por decreto’, e que a fé não se transmite biologicamente às novas e esfriadas gerações. Na ABU, discipulado pelo pastor Dionísio Pape, fui aprender que existia uma outra estranha categoria de protestantes: os liberais. Enquanto os nominais pareciam crer de fora, os liberais descriam dentro da Igreja. Ele me falou da influência racionalista do iluminismo, via faculdades de teologia, nas universidades públicas, dos professores de teologia e clérigos profissionais que, embora chamados de luteranos, presbiterianos ou anglicanos, não acreditavam no que Lutero, Calvino ou Cranmer haviam escrito, inclusive as históricas confissões de fé de suas igrejas.” (Cavalcanti, Robson. Protestantismo: o que deu errado? In: Revista Ultimato, Ed. 306, maio-junho de 2007).
Com tudo isso que vemos em meio ao celeiro cristão, parece que uma coisa está perdidamente confirmada entre nós: não sabemos mais em quem temos crido. As igrejas perderam o referencial cristológico e perderam o rumo.
Se perguntado a respeito de sua fé, dificilmente um cristão de nossos dias saberá responder a perguntas simples como “porque você é cristão?”, ou “porque você diz que segue a Jesus?”, ou “você pode me explicar o que é ser salvo por Jesus?”, ou ainda “precisamos mesmo ser perdoados de alguma coisa, já que somos tão bons?”. E a pior delas seria “em que você crê finalmente?”
Sentimos muito. Experimentamos muito. Mas não sabemos nada de Deus. Muito menos vivemos Deus. Isso é o que andam chamando de avivamento das igrejas. Pode até ser, mas não o da Igreja.
Mas o que será que podemos esperar para mudar tudo isso? Precisamos de um retorno imediato aos grandes e fundamentais temas do cristianismo. Esses temas precisam retornar ao lugar de onde nunca deveriam ter saído por uma simples razão: eles tratam do Ser central do cristianismo, o próprio Cristo e, quando saem de sua centralidade, deixam espaço para que outros aspectos ali entrem e dominem. Por exemplo, quando passamos a ter a análise de nossa fé pela ótica do Iluminismo, abrimos a porta para a Teologia Liberal entrar e se fazer senhora de muitas paráfrases do cristianismo protestante.
Precisamos voltar a viver a nossa fé de maneira simples, crendo na Palavra revelada como ponto final de nossa fé. Precisamos crer que o mar se abriu sem a preocupação de descobrirmos se ventos sopraram: apenas crer que o povo passou e foi salvo! Deixamos de crer que Deus salvou o povo porque não entendemos como as águas se abriram e, assim, perdemos o mais importante por esperarmos ver o que jamais veremos!
Precisamos, paradoxalmente, retornar a uma fé que, embora simples e verdadeiramente crédula, seja de arrazoamento e seja inteligente. Mas essa inteligência deverá seguir os parâmetros de Deus e não os do mundo. Precisamos deixar de parecer inteligentes para o mundo e nos lembrarmos que precisamos voltar a alegrar o coração do Pai Amado.
Precisamos abandonar as modas e modismos, as coreografias malditas, as canções mântricas amaldiçoadoras da mente e desgraçadoras do coração, precisamos deixar as coletas feitas para a compra de coisas sem propósito de igreja e montagem de mega-instituições apinhadas de gente que não valem por um punhado de cristãos. Claro que tudo é feito em nome de Deus. Creio que Ele deve estar cansado de ver Seu nome tomado à toa, quase nunca pelos de fora, mas quase sempre pelos de dentro das igrejas.
Precisamos, então, voltar às canções simples que falem da poesia do Criador, que enlevem a alma, que descansem o coração, que manifestem a graça, precisamos retornar às capelas simples nas quais os poucos valiam por multidões. Precisamos ver nos recursos a chance de falar mais desse nosso Deus, acessível e simples. Mais dele e menos de nós. Mais de Seu amor e menos de nossos impérios. Mais dele e menos de nossas conquistas. E precisamos fazer isso em nome de Deus, de modo temeroso e singelo. Com o coração trêmulo, embora confiante, diante dele.
Precisamos falar de novo em justificação pela fé, na graça de Deus, em Sua soberania. Precisamos falar de novo que o homem vive naturalmente em pecado e, a não ser que seja achegado a Deus, terá morte eterna. Sim! Não falamos mais em morte e salvação eternas. Precisamos falar de novo em autoridade das Escrituras, em novo nascimento, no fruto do Espírito Santo, na necessidade do arrependimento e da santificação.

Como mudar a igreja hoje?
Por tudo que refletimos, creio que a resposta é simples e direta. Para mudar a igreja hoje (igreja, não Igreja), precisamos tirar da igreja tudo que não for Cristo e voltar com Cristo para ser novamente tudo na igreja. Com isso a igreja voltará a se parecer com a Igreja. Essa é a mudança de que precisamos. E o resto virá depois.