segunda-feira, 8 de setembro de 2008

COMUNHÃO?

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro
Imagens:
http://www.flickr.com/


Do latim comunnione, que nos remete a comunidade de fé ou de crenças, de opiniões convergentes, embora não necessariamente idênticas. Lembra-nos a Eucaristia, ou Santa Ceia, ou o momento em que a mesma é administrada e recebida. Leva-nos a pensar sobre o partilhar espontâneo de bens e pertences entre os cônjuges ou entre amigos muito achegados. Coisas bonitas!

Por sua vez, o termo latino vem de communis, algo que pertencia a todos ou a muitos. Dessa matriz temos diversas palavras em português moderno, com muitos significados, como comungar, comunitário, comunista, descomunal, comunicação, comunidade, etc.

Comunhão evoluiu do português arcaico comoyon (século XIII) e comunhõ (século XV) até chegar à forma atual. Antes da forma communione, a palavra nasceu como termo eclesiástico, passando pelo latim communio (-onis). Para se ter mais profundidade, pode-se consultar um bom dicionário de Etimologia (o Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, de Antônio Geraldo da Cunha, é um bom exemplo).

Com união. Esse é um sentido possível do termo em sentido teológico. Ter união uns com os outros. Ter união com Deus. Comunhão nos leva a isso: vida com união.

O ser humano não foi feito para a vida solitária. Nem só de outros seres humanos; nem só de Deus; nem só de si mesmo. O termo mostra sua evolução etimológica, que, desde o latim até o português moderno, passando por momentos lingüísticos como romance, galego-português e o próprio português arcaico, chega a uma forma atual polida e refinada pelo tempo e pelo uso de gerações de falantes.

A comunhão, como sentido referencial do termo, no entanto, parece ter sofrido uma involução. Explico: para cada termo que temos em nossa língua, seja ela qual for, temos um significado base que guardamos em nosso interior. “Cadeira”, por exemplo: mesmo que eu não descreva para você uma cadeira específica, você, ao ouvir a palavra, sabe que eu falo daquele objeto em geral com quatro pernas e um espaldar no qual nos sentamos. Outras palavras sofrem alterações de significado e o termo original, a base da compreensão do que era aquilo, o sema, já não é o mesmo. “Coitada”, por exemplo: dizemos isso, hoje, em relação a uma pessoa do sexo feminino pela qual nutrimos pesar; mas, no passado, já quis apontar para uma mulher vítima de coito forçado, ou, em entendimento mais atual, forçada ao ato coito (ato sexual).

Creio que o sentido base de comunhão também foi alterado. Nesse caso, por se tratar de um termo com base em pensamentos cristãos e eclesiásticos, penso que ele involuiu, pelas razões que brevemente disse acima. Hoje em dia quando, numa comunidade de fé (viram? comunidade vem da mesma matriz latina...) quando se fala em comunhão, via de regra se fala em amizade. Fala-se em relacionamento fortuito e superficial, fala-se em algo que pode ser e pode deixar de ser. Mas por qual razão isso se daria? À primeira vista, a resposta parece saltar do fato de implantarmos em nossas ações espirituais, no macro de nossa vida, aquilo que temos praticado em nossa existência secular, o micro de nossa vida. Assim, como nos tornamos isolados uns dos outros ao longo das eras, involuímos e nos tornamos, também, isolados de Deus para, finalmente, nos tornarmos isolados de nós mesmos. O termo comunhão acompanhou isso: perdemos a comunhão uns com os outros, perdemos a comunhão com Deus e perdemos a comunhão conosco mesmos.

A alteridade é uma questão problemática para a História humana há muito tempo, desde que nos entendemos por raça capaz de registrar seus feitos. Começamos a nos afastar deliberada e sistematicamente de Deus - em termos filosófico-existenciais e não capitais - há uns poucos séculos e, de uns dois ou três para cá, começamos a fazer o mesmo conosco mesmos. Triste raça. Triste sina. Triste destino de quem não conseguia olhar para o outro, nem para Deus, e agora nem para seu reflexo num espelho de moral e ética quebradas.

Mas nós, que temos uma esperança bíblica, uma esperança em reaver a comunhão perdida, precisamos olhar para a involução do termo e buscar a reversão desse estado semântico, trazendo de volta para nossos círculos mais pessoais e, em seguida, comunitários (vejam de novo a matriz latina...) a esperança bíblico-teológico da possibilidade da comunhão verdadeira. Ocorre que ela só é possível quando temos comunhão conosco mesmos, comunhão com o outro e, acima de tudo, comunhão com Deus. Esta, aliás, é condição para reavermos o sentido do termo, com união, e a prática do mesmo.

Precisamos deixar de ver comunhão como a prática de uma relação de amizade fortuita e passar a desenvolver o esforço, a busca, por um estado de comunhão. Essa não é uma comunhão barata, criada a toque de caixa, com sorrisos plásticos, tapinhas nas costas e as boas-vindas à porta de uma igreja. Essa não é a comunhão que não traz o “com” nem a “união” numa só ação. Essa não é a comunhão que, em seu bojo, nos remete à Eucaristia, à Mesa do Senhor, ao memorial maior do nosso Salvador.

Paulo, escrevendo a Filemon diz a ele, bem no início de sua carta, que a sua fé e seu amor eram reconhecidos por outros, pois ele ouvia falar “sua fé no Senhor Jesus e do seu amor por todos os santos” (verso 5), além de declarar que ele, Paulo, orava por Filemon constantemente (verso 4), motivado, segundo o próprio autor sagrado, por essas informações. E ele segue, no verso 6, dizendo “oro para que a comunhão que procede da sua fé seja eficaz no pleno conhecimento de todo o bem que temos em Cristo”.

Apenas para finalizar este que poderia ser tema de muita conversa, o que precisamos, nos dias involuídos em que vivemos, é retornar ao sema de comunhão. É retornar à fé e ao amor - e que estes sejam reconhecidos por onde quer que andemos. É retornar ao princípio da comunhão, no qual viver conosco, com o outro e, ainda mais, com Deus, represente viver “com união”, com interação, com muito mais que afagos nos ombros, no intelecto ou no ego. E isso, seguindo a dica de Paulo, tem que partir da oração. Oração pelo outro, que estará orando por nós. Todos orando por todos. Esse é o segredo.


Precisamos involuir novamente a involução. Involuir a involução é evoluir. Saindo da lingüística, é como na matemática: dois negativos trazem um resultado positivo...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

E A VIOLÊNCIA?

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro

Há muito que pode ser feito para se enfrentar a violência. Especialistas poderiam nos fornecer uma enorme lista de procedimentos e decisões que seriam suficientes para minimizar e, a longo prazo, tornar nossa sociedade pelo menos tolerável em termos de segurança. Muitos lugares mundo afora já estiveram em situação mais dramática que a nossa e hoje, passados muitos anos, estão em outro patamar, com seus cidadãos andando menos preocupados por suas ruas. É possível, portanto.
Ocorre que não somos especialistas em segurança pública. Somos cidadãos; exatamente as pessoas que sofrem as ações prejudiciais de um estado de insegurança e violência generalizados. Não sabemos o que fazer em termos práticos com relação ao caos que nos cerca, a não ser pequenas medidas de prevenção, mas quase todas elas em caráter individual e, no máximo, familiar.
Com isso quero dizer que qualquer ação que tomemos por nossa correrá o sério risco de ser um arremedo desesperado de uma ação falha de pressupostos. Podemos ter boa vontade, mas a mesma, sem capacitação técnica e política, será nula. Nada do que se fizer em termos particulares poderá influenciar decisivamente nos fatos sociais amplos. As exceções na História são raras, e sempre executadas por alguns daqueles seres humanos brilhantes que despontam de tempos em tempos para nos levarem a alguma diferença na vida em sociedade.
Cada um deve usar das armas que tem e que sabe manusear bem. Usar as armas do outro pode representar desgraça e incapacidade. Pode representar a perda do pouco que se tem. Digo isso porque somos cristãos. Não somos políticos. Não somos agentes de segurança. Não somos autoridades públicas. Claro, falo da maioria de nós, sabendo que alguns cristãos podem militar nessas áreas também.
Na maioria das vezes, vale mais a pena lutar com armas simples, porém de bom manuseio, que armas melhores e mais sofisticadas, sobre as quais não se tenha bom manejo e domínio. As nossas armas, como cristãos, quase nunca são as armas com que os especialistas podem lutar. Eles devem saber o que fazem com elas. Nós, não. Não me adianta fazer levantes e manifestar minha indignação sem que, antes, eu tenha me utilizado das minhas armas apropriadas.
Isso mesmo aconteceu com um bravo rei da antigüidade, até hoje reconhecido por sua bravura e destreza em combate. Mas, quando estava por começar sua carreira de combatente, tomou um dos passos mais importantes para sua afirmação nos campos de batalha: abriu mão de lutar com a arma do outro. Davi ainda era muito jovem, franzina e de pequena estatura. Sabendo de um iminente confronto, com relação ao qual os soldados profissionais tremiam (teriam que enfrentar um homem de estatura acima do normal, portando armas imensas), Davi se encontrou com seu rei, Saul. Este, impressionado pela coragem do jovem, fez com ele vestisse sua própria armadura, pusesse seu elmo de bronze e usasse suas armas.
O relato, que está em 1 Samuel 17, é muito interessante e emblemático para nossos dias. Davi percebeu que, mesmo com armas muitíssimo melhores que as suas, estaria fadado à derrota por uma simples razão: ele não as conseguiria usar. Ele tinha consigo apenas uma funda, uma espécie de atiradeira, que em vez de puxar os elásticos, tem suas tiras de couro giradas e, com presteza, libera-se a pedra. Não é normal acreditar que uma pedrinha e uma funda pudessem funcionar melhor que armaduras e armas profissionais. Mas assim foi. E, incrível, assim continua sendo.
Em Efésios, um outro gigante da fé, o apóstolo Paulo, nos deixa claro que nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra as esferas de poder e domínio espirituais que tomam conta de nossa sociedade. Como lutar contra esses gigantes, pelos quais passam as manobras de violência e intolerância que tanto afligem a nossa comunidade como um todo? Lutando com as belas armaduras que os especialistas podem nos emprestar, assim como Saul fez em relação a Davi? Adiantará se eu, um simples pregador, um pensador sobre questões de fé, quiser me valer das armas práticas ou técnicas dos que se tornaram os monitores e executores da luta social contra o estado de violência?
Mesmo que o fizesse, e imaginando que isso trouxesse algum fruto, quem faria o papel de Davi nesse embate? Ou seja, se eu também lutar como eles, junto a eles, quem haverá de fazer o que eles não sabem? Aqui entra o nosso valor, o valor de nossas ações, que aos nossos olhos podem ser mínimas, mas que podem fazer toda a diferença. Sem Davi e sua singeleza de ação, a guerra estaria comprometida. Isso por uma única razão: ele não contava apenas com sua funda e com as pedrinhas de que dispunha. Ele contava, acima de tudo, com a ajuda presente de seu Deus, que é o mesmo Deus dos cristãos, hoje. O Deus que o fez vencer um gigante no passado é o Deus que nos fará vencer gigantes hoje. Sem os cristãos e sua simples vida de devoção e oração o mundo seria muito pior. Mas com cristãos vivendo vida pífia e se esquecendo de suas fundas e pedrinhas enquanto buscam as armaduras que não conseguem vestir, a sociedade deixa de ser melhor do que é. Os especialistas só vêem o visível. Os cristãos militam na área do invisível e do imponderável. Nós oramos e vivemos sob a égide de um Deus que é superior a todos os dilemas que podemos enfrentar em nossa labuta social. Nossas armas são espirituais. Podemos e devemos envidar esforços para que nossa sociedade seja melhor, mas, sendo cristãos, nossas ações serão vagas e sem sentido se não começarmos por deixar de lado nossa pretensão de usar armaduras que não nos pertencem. Precisamos voltar à noção clara de que somos peregrinos neste mundo, de que Deus nos chamou para Si com propósitos bem definidos e que temos algo a fazer enquanto por aqui estivermos. Só que Ele nos chamou primeiro para a vida na esfera do Espírito e, depois, para as demais ações, uma vez estruturados na área espiritual. Esta, sem abandonar aquela, mas a ela submissa.Precisamos, antes de levantar bandeiras e atiçar as flâmulas, parar com tudo o que estivermos fazendo e voltar às velhas práticas de devoção, leitura da Palavra de Deus e incessante oração, com clamor e súplicas pela sociedade e pelo povo massacrado pela violência. Depois de derrubar Golias, quem venceu a guerra foi o povo de Israel. Se os cristãos se unirem em oração, em clamor sincero diante do Pai, alguns gigantes certamente haverão de cair. Depois de ver estes Golias derrubados, a sociedade como um todo será vencedora. Mesmo que ninguém saiba quem foi o Davi desta vez, todos reconhecerão que alguém teve que derrubar o gigante.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

PENSANDO A UNIDADE

Texto de Joel Theodoro,
pastor no Rio de Janeiro
Imagens: http://www.flickr.com/

Pensar em unidade não é tarefa das mais fáceis, o que não é privilégio apenas de cristãos e pré-cristãos, se assim posso chamar os irmãos do Antigo Testamento. Gente da mais alta estirpe de pensadores de nossa raça humana tem se esforçado por entender e nos fazer compreender melhor quais os possíveis significados da unidade, suas implicações, suas motivações e tudo o que possa dizer respeito a esse ponto de nossas constantes reflexões.
Perdoem-me, portanto, os pensadores que eventualmente possam ler este pequeno texto, mas não sou pensador, não me arvoro o direito de divulgar postulados em busca de seguidores, nem creio ter alcançado a primazia da razão e da verdade. Sou apenas ser humano, cristão, marido, pai, trabalhador, brasileiro... tudo muito comum. Sou pessoa das mais comuns.
A primeira coisa que nos vem à mente é que unidade tem a ver com uniformidade. Acho que isso nos engana. E muito. Embaça a nossa vista, incapacita nossa percepção e nos faz deixar de ver o que é unidade, exatamente por estarmos a olhar, crendo ser ela, uma outra coisa, cuja fonética e cuja raiz semântica realmente têm relação, mas cujos significados filosóficos e teológicos são bem diferentes. Uniformidade busca uma semelhança geral, a ponto de não vermos – ou não podermos ver – as dessemelhanças entre os uniformes. Podem pensar diferente, mas devem parecer a mesma coisa; podem brigar nos bastidores, mas devem parecer harmoniosos à frente dos demais; podem se matar, mas devem aparentar dar vida uns aos outros. Essa uniformidade, no fundo, soa a hipocrisia. Há uma uniformidade que não é conceitual, mas que é autêntica e necessária, como a das doutrinas militares, dos princípios do Estado, das razões axiomáticas. Essa uniformidade almejada é legítima em seus âmbitos, mas não é dela que falo agora.
Falo de uma outra, da hipócrita, da menos valorosa, da pouco amável, da impiedosa. Talvez pudesse me referir a uma uniformidade que faz homens e mulheres usarem o mesmo timbre vocal e os mesmos gestos que seus líderes religiosos (assim são mais “ungidos” e conseguem crescer mais rápido). Talvez, quem sabe, pudesse me referir a desvarios de imposições chamadas corriqueiramente de “costumes” em algumas comunidades eclesiais – cujo ponto central é apenas mostrar aos demais quem é mais santo (pelo menos por fora). Quem sabe, ainda, poderia me referir aos processuais de busca de status espiritual na desenfreada correria para se mensurar quem tem mais dons espirituais que, se eram para ser dons gratuitos de Deus, agora representam nivelamento de índices de espiritualidade (via de regra com a obrigatoriedade de surgirem as inúmeras visões e revelações – quase sempre advertindo os demais sobre as desgraças que os aguardam e quase nunca trazendo paz à alma, como é comum da parte de Deus).
Questões e problemas postos de lado, a unidade não tem a ver com esses desníveis que passamos a chamar de uniformidade. Para mim, impensador que sou, há uma palavra de Jesus que me fala alto ao coração. Paulo também diz coisas profundas sobre a unidade, principalmente aos Romanos, aos Coríntios e aos Efésios. Mas é Jesus que me constrange mais profundamente sobre a questão da unidade. E isso porque percebo sua fala de amor quando ele orou por mim e por você, pedindo diretamente a Deus por nossa unidade. Sim, por mim e por você. Veja o que ele diz quando ora em João 17, dos versos 17 ao 23: “Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste.”
Ora, quem seriam aqueles que ainda creriam nele? Os que surgiriam depois do tempo em que ele estava orando, às vésperas de seu suplício terreno. Somos nós: eu e você. E seu pedido é muito objetivo: que sejamos um, seguindo o modelo de unidade entre Jesus e Deus Pai. A finalidade também é explicitada, qual seja que o mundo creia no processo de salvação a partir da constatação de nossa unidade. A capacitação foi mencionada por Jesus, que diz que nos passou a glória que Deus tinha dado a ele, para que fôssemos um. Repete ao final que, assim, o mundo saberá que ele foi mesmo enviado por Deus e encerra dizendo que o Pai nos amou da mesma forma que amou Jesus. Isso é unidade. Nada de uniformidade foi mostrada nessa oração. Como cristãos devemos ter sempre em mente que nosso papel maior, como Igreja de Cristo, é levar seu amor e salvação ao mundo que não o conhece. Ultimamente há um verdadeiro arsenal de possibilidades à mão de todos os que querem propagar a mensagem de Deus. O problema desse arsenal é que, em boa parte das vezes, ele se despiu de Bíblia e assumiu novos ares, com pesadas estratégias de mercado, muito marketing, muito show, muito dinheiro e rara dose de unidade. Para que unidade? Essa coisa fora de moda num mundo pós-moderno em que ninguém sabe para que vive, numa sociedade que joga fora toda possibilidade de comunicação real por uma dose cada vez mais forte do individualismo exacerbado. Unidade só funciona se for pelo menos um mais um. Um sozinho não consegue pensar em unidade, o que explica boa parte dos danos que sofremos nesse quesito.
Li recentemente em “Uma outra espiritualidade” (Ed René Kivitz, Ed. Mundo Cristão) a lembrança de que os tempos mudaram e nós migramos com ele: o centro das atenções pulou de Deus (tempos pré-modernos) para o homem (tempos modernos) para ninguém (tempos pós-modernos). Sem chance de, naturalmente, nós vivermos qualquer processo de unidade. A não ser que a oração de Jesus funcione...
O ponto central é que não adianta a Igreja no Brasil e no mundo crescer, ter políticos de destaque, ficar rica, nem mesmo fazer boas obras sociais e filantrópicas. A unidade deve ser buscada por nós para que o mundo creia que Deus enviou Jesus. A falência dos processos evangelizadores talvez esteja centrada no fato de que tentamos há quase dois mil anos empurrar goela abaixo do mundo a mensagem de Cristo, quando o que ele nos pediu é simples, mas uma das coisas que parece que mais temos dificuldade em alcançar. Sem unidade, dificilmente crerão que o Pai enviou Jesus. Sem unidade representamos apenas o farelo do que poderia ser um enorme bolo. Lembro: unidade e não uniformidade. Unidade não afasta a diversidade, mas permite que os diversos convivam bem e até comunguem entre si e com Deus. A diversidade é notada desde os primeiros tempos, com narrativas bíblicas e extra-bíblicas a esse respeito. Lembram-se dos textos neotestamentários que narram as dificuldades enfrentadas entre os primeiros cristãos gentios e os cristãos judaizantes? Logo no segundo século já despontavam, por conta de preocupações, muitas delas legítimas, os primeiros traços de uma Igreja institucionalizada, com o princípio hierárquico surgindo, dando origem a igrejas mais “importantes”, a bispos, a credos formais, etc. Não tardou muito para que os embates em torno da unidade surgissem por toda parte, principalmente quando interpretações diferentes começaram a surgir sobre o mesmo testemunho de fé. Gnósticos, marcionitas, mais tarde os nestorianos, etc. Cada qual representava uma ameaça à unidade e constituía nova luta para preservá-la.
Paulo fala com muita propriedade sobre o tema. Se ouvíssemos mais o que ele nos diz, talvez fôssemos Igreja mais unida. Em 1 Coríntios 12 ele começa dizendo “Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo.” Essa é a essência da unidade: compreender que somos diferentes e diversos, mas precisamos ser um em Cristo, assim como ele e o Pai são um.
Não precisamos relaxar nossos conceitos. Ecumenismo não resolve a questão. Nem convívio amigável põe termo às discussões. Precisamos de coisas muito simples, mas que exigem coragem e determinação. Precisamos reconhecer o senhorio de Cristo sobre nossas vidas e simplesmente obedecer a seus desígnios. Falamos tanto da Grande Comissão e tanto nos esforçamos por cumpri-la. Mas o básico não temos feito. Isso visto que entendemos nestes pensamentos que se o mundo não perceber unidade em nós, simplesmente não crerá que Deus mandou Jesus Cristo. E se o mundo não crer nele, não será salvo.
Estes pensamentos soltos sobre unidade mostram um incômodo pessoal. Gostaria de viver tempos novos sobre a questão. Podemos nos esforçar e orar. Podemos refletir e esperar que o próprio Deus nos capacite em nossas limitações. Podemos fazer isso como exercício de busca pela unidade, mesmo sabendo que somos diferentes e diversos, mas que, mesmo assim, Jesus nos quer como um.